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Mostrando postagens de 2015

As Marcas

As Marcas Já rolei e já fui rolado. Já tombei e dei tombos maiores. Quantas vezes me vi perdido. Quantas vezes me senti perdido? Sozinho. Meu coração foi machucado tantas vezes que criou uma couraça. Ele tem marcas e criou uma carcaça. Uma couraça. Por isso guardo minhas marcas. Não me envergonho delas. São o que sou e me protegem. São a capa que me protege. O meu medo criou minha própria proteção. Foi meu mecanismo de defesa. Hoje me sinto forte, graças a minhas marcas. No meu ultimo dia, meu pensamento será: “Não fui até o ultimo dia, fui mais longe, porque aprendi com minhas marcas.” ... ... ...

Interminável

Todos os dias sinto mãos ásperas sobre mim. Tapas, socos e palavras grossas. Não as culpo. Sou um homem grosso que procura por isso. Adoraria acordar com carinhos, tomar café com uns tapas, almoçar aos socos com alguém mais forte que eu, tomar café de tarde aos murros com outro bruto e jantar sangrando com outro brutamontes. Mas as vezes eu me sinto cansado. Tenho vontade de apenas deitar ao lado de minha menina e contar essas histórias. Me sentir o homem forte a seu lado. Confortá-la e me confortar. Lhe contar minhas histórias como se fossem inventadas. Olhar ela rir das minhas histórias não inventadas, enquanto ela se pergunta até onde vai a verdade.

Carbúnculo

Carbúnculo O homem caiu de cara contra a terra seca. A poeira subiu, sua boca sangrou. Um dente do fundo da arcada quebrou. Sentiu ânsia e a engoliu. O ombro direito se deslocara, a rótula de seu joelho estava solta. A cartilagem de seu nariz se rompera. Viu seus óculos quebrados ao longe. Aquilo era o que mais o agoniava. Mas era o menor de seus problemas. Sentia o calor do hálito do demônio – aquele da Bíblia – em suas costas. - Hoje vou arrancar sua espinha pelas costas, homem. Como você tentou fazer comigo. O homem logo se voltou de frente para o diabo. - Questão de orgulho me derrotar, não é, Capiroto? -Sim. Sabeis que não posso nada te fazer enquanto me olhar nos olhos. Nosso pai bastardo fez eu e ti assim. Mas hoje eu te pegarei pelas costas. O homem cambaleava sem tirar os olhos do demônio. - Te conheço, Sinistro. Pegar por trás é seu forte. Melhor dizendo, o momento em que você consegue ser forte. Sei que assim que lhe der as costas, você aproveitara e as rasgar...

Arroz

Arroz Cheguei tão cansada em casa. Tive que sair mais tarde. O hospital estava cheio e eu tive que dobrar meu turno. Outros dobraram também. O que eu mais queria era tomar um banho, comer e dormir. Nunca acreditei em ter indigestão em comer e depois tomar banho. Entrei em casa e meu namorado estava dormindo no sofá-cama. Passei a mão pelo rosto dele e ele nem se mexeu. No caminho até o banheiro, vi a cozinha intacta. Nada para comer. Me resignei com meu banho. Depois de alguns minutos no banho, ele abriu a porta apenas um trecho e com um olhar de sono me disse “Como foi o dia?” “Preciso de cama.” “Tem algo pra comer?” “Deixei algo aí.” Saí do banho sabendo que ele tinha pedido uma pizza. Tava ótimo. Gastamos mais, ganhamos mais gorduras, mas eu tava com uma fome... - O que você fez, amor? - Arroz... Abri o forno duvidando dele. Quando olhei... vi uma panelinha de arroz de uns dois dias. Seco. - Arroz, filho da puta? E branco? E velho? Ele levantou nervoso. - ...

A Cuca

A Cuca A Cuca é provavelmente o ser mais besta que passa pelo imaginário infantil. Como ela é? Me descreve ela? É um jacaré que anda em duas patas, um monstro disforme ou a Xuxa sem Cicatricure?? Essa última imagem vai me perseguir o resto da noite... Voltemos a Cuca. É a coisa mais horrorosa do mundo. Quando somos criança, tudo nos amedronta. Mas aquilo que não sabemos o que é, aquilo que não vemos, consegue ser mais assustador. Eu tinha uns seis anos quando a vi pela primeira vez. Lembro que gritei e corri da cozinha. Era um dia frio como hoje, todo nublado. Eu associei a imagem dela a um lobisomem. Ela não era assustadora. Era apenas a coisa mais assustadora que eu já vira. Hoje é o dia em que a vi pela segunda vez. Vamos aos fatos: Eu estava desmaiado em um quarto de hotel, caído no chão. Minha menina tentava me acordar. Era noite e o vento castigava as janelas. Minha menina – um dia falo o nome dela – bateu no meu rosto. - Acorda, ela tá aqui! Me levantei com medo. ...

O Medo

O Medo O conselho reunido em um aquário de vidro. O corredor estreito e frio. Passar disfarçadamente por ali.  Se trancar no banheiro e sentar-se em um canto, abraçar as pernas e chorar.

A Torção

A Torção Eu me lembro exatamente do dia da luta. Era um campeonato de judô. Eu lutava com um cara um pouco maior que eu. Não foi culpa dele. Eu posicionei minha perna de forma errada e ele aproveitou a oportunidade. Meu joelho sofreu alguma lesão que me acompanha até hoje. A dor me acompanhou até o vestiário. Meu cérebro só passava pela dor em meu joelho. Eram choques de dor. Acho que foi o dia em que aprendi a lidar com a dor. Assim como todas as sensações, a dor é apenas uma sensação. Pense em outra coisa e você a esquece. Houve uma discussão entre eu e meu professor. Ele não queria que eu voltasse, para me preservar. Eu queria pisar de novo no tatami e ter a chance de reencontrar quem havia me machucado. Meu professor cedeu. Eu falhei. Não reencontrei nas chaves aquele que me machucara. E não saí vencedor, aquele dia. Mas... Algo ficou gravado em mim, aquele dia. Eu caí de novo várias vezes. Em algum momento, meu joelho não doía mais. Anestesia, talvez? Acho que não. Sentid...

Pra que se envolver?

Pra que se envolver? Eu estava sentado em uma van, a poucos quilômetros de casa. Lotação bem cheia, mas eu entrara no primeiro ponto e sentara logo após a catraca. Ouvi uma senhora falar bem alto: - Moço! Não é difícil perceber quando alguém fala ao telefone. Novamente: - Moço! Mais uns segundos e ouço: - Moço, onde você pegou minha filha? Minha cabeça analisou. Era um golpe. Eu estava com as pernas doendo de ficar em pé, não queria levantar. Meus dois pensamentos foram “É um golpe e ela vai perceber.” O outro foi: “Estou enganado, não sei o que acontece e não tenho nada haver com isso.” Ouvi novamente: - Moço, o que eu tenho que fazer? Não faz nada com minha filha! Não levantei aos trancos, mas minha estatura fez com que eu empurrasse algumas pessoas até chegar a senhora. Estávamos a poucos quarteirões da 21° DP. - Dona, é um golpe. Sua filha está bem. Tem uma delegacia no próximo ponto. A senhora vai descer e ir até lá comigo. Eu vou te acompanhar. Pra quê?...

Miguel

Miguel Miguel não se sentia alguém crente, fiel ou religioso. Não dava muita atenção a tudo isso. Igrejas, templos, bíblias, Maomé ou Jesus. Nada disso lhe importava. Não precisava. Um homem que vê anjos, conversa com eles e ganha seus favores não precisa de fé. Estava tudo ao seu redor o tempo todo. Se enquanto tomasse cerveja sentado em uma cadeira na praia e uma garota de biquíni passasse e lhe atraí-se, era só pedir a um anjo e essa inocente era cortejada pelo próprio anjo e atraída até ele, sem que ele nem precisasse tirar o boné para cumprimentá-la. Quando pensava em trocar de carro, não precisava ir até uma agência. Seu advogado lhe ligava e explicava quais documentos assinar após o falecimento de um parente mais velho. Transferia o veículo e voltava a curtir um carro novo. No dia em que uma ficante lhe contou que estavam esperando um filho, ele se trancou em desespero no banheiro do apartamento. Queria pedir ajuda a um anjo. Com o passar dos anos, percebera que um anjo...

Vezes

Vezes Às vezes me pego indo dormir e pensando nela. Não é bem às vezes. É cotidiano.Muitas vezes abraço uma almofada e durmo pensando nela. Não muitas vezes. Mas são todas as vezes. Tem vez em que me imagino contando uma história a ela. Imagino ela me dando atenção e rindo ao final. Ela sempre ri. Várias vezes lembro do corpo dela.  Seu peito, suas coxas me abraçando, sua cabeça em meu ombro. Há vezes em que a odeio por sua moral. Garota boazinha. Uma princesa que estuda direito e medicina deveria ter mais prática em enganar e matar... Mas sempre há vezes em que não consigo esquecer dela. Vezes em que quero ela mais vezes. O sorriso bobo que ela me dá. A chatice de ela ficar pegando meus braços. O ódio de brigar por ela ter pego gosto de bater em meu peito e ombros. O sorriso bobo, bobo, bobo. Inocente e bonito. Capaz de superar – que ódio – os tapas que ela dá em meu peito. Mas eu quero ela outra vez. Vezes e mais vezes. Enganar e matar... Que bela ironia, não acha? Con...

Eu não sei nadar

Aural olhou para o outro lado. Ouvia o som de correntes se arrastando. Olhou para a lagoa, olhou para o túnel atrás de si. Não tinha pra onde fugir. Viu os dois soldados aparecerem no túnel à esquerda. Eles arrastavam correntes. Pararam e a olharam. Ucrem surgiu. Olhou para ela e exalou seu hálito. Ela foi intoxicada. Fechou os olhos e esperou pelo pior. O Sr. R surgiu do mesmo túnel que ela. Foi intoxicado. A agarrou e a jogou no ombro. Correu em direção a lagoa. - Vamos ter que usar nossas pomadas. - Eu emprestei a minha ao Baldo”. Ele parou e olhou de novo a Ucrem. O ar estava quente, a lagoa a um passo. O dragão exalou novamente seu cheiro. - Eu não sei nadar, senhor. - Eu sei. Em seguida a jogou na lagoa. Sacou a espada e deu dois passos em direção ao dragão. O ar fedia. - Sua espada não penetra a pele dele! Ele voltou para perto da lagoa. Olhou as pedras no teto do túnel. - Um de vocês dois, ou esse dragão doente, são há prova de fogo? Bateu a espada no t...

Em terra estrangeira, seus braços serão meus braços

Imagem
Roccie chegou primeiro a base, em um carro smart. Um lugar deserto, torrado pelo sol. Não via sinal dos helicópteros. Deviam rastrear outra área. James chegou em uma moto custom, com a espada pendurada à cintura. Ambos apearam e se olharam. Estavam à mais de vinte metros um do outro. Olharam ao redor. Se entre olharam. O silêncio era terrível. O barulho dos motores dos helicópteros surgiu simultaneamente. Eles ficaram de costas, um para o outro. Viram soldados correndo ao redor. - Pai! James se virou e viu a ponto 65 na mão de Roccie. Pegou sua katana sem tirar a bainha, e a arremessou em direção ao filho. Este fez o mesmo com a arma. Elas se cruzaram no espaço, quase se esbarrando. Roccie a desembanhou e correu como um louco até os soldados. James empunho a arma. Sabia que o resultado não era o melhor, mas o bunker precisava ser protegido a todo custo. Olhou para o Apache, segurou a ponto 65 com as duas mãos, arqueou os ombros e atirou. O rotor de cauda do helicóptero...

O Último Café

Pathé olhou ao redor. Sentada na cafeteria, tudo lhe transmitia calma. Roccie estava plácido, lhe transmitia confiança. Passara a mão pelos longos cabelos loiros. Jamais faria isso se estivesse nervoso.Golthies e Macheus papeavam. Pareciam crianças enormes. Filipi olhava eventualmente para todos. Coçava o bigode. Fingia estar alheio. Mais uma vez, ela sentiu uma ponta de inveja dos titãs. Era requisitada mais uma vez, mas não era aceita. Todos votavam pela aprovação dela. Mas só um tinha poder de veto. E ele continuava impassível. James  era o centro de tudo, naquele momento. Pathé não entendia como ele conseguia ser tão frio. Todos olhavam discretamente para as janelas. Mas ela notou que ele não fazia isso. Ele olhava para detalhes bem menores. A gota de café na beira de sua xícara. O resto de mostarda no canto da mesa.Uma pequena mancha na lente de seus óculos. Tudo parecia a ele maior do que o medo de estarem cercados em uma cafeteria. Prestes a serem mortos.  ...