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Mostrando postagens de janeiro, 2022

Aprendendo a Viver

 Assim segue a alegria, a tristeza, a dor e o prazer. Você se descobre individual. Querer algo faz parte. Lutar por ela também. Mas saber viver sem... também. Não haverá o dia em que você terá que abdicar de tudo? Um dia teus olhos podem te faltar, e você terá que aprender a viver sem eles. Um dia você pode ficar entrevado em uma cama, sem poder mover pernas e braços. Mas poderá pensar a respeito disso. E se você digerir o que está ocorrendo, poderá saber viver com isso. Um dia alguém amado pode te faltar. E como não sabemos que esse dia pode chegar, não é?! Porque se encontramos o amor verdadeiro, das duas uma: ou partimos antes, ou partimos depois. Mas uma coisa é certa: se o amor era verdadeiro de um dos lados, esse lado sentirá falta. E terá que saber lidar com isso. Venho passando aos poucos pelos três exemplos acima. E sabe? Não é tão horrível assim. Assim como pode-se achar método e sentido até na loucura, pode-se encontrar regozijo na dor e desesperança. Novos dias vem e vã...

Os Trovadores

Os Trovadores Um casal tão bobo. Tonto. Bobos da corte. Sempre rindo e fazendo graças. Se pregando peças, sustos e beijos. Duas crianças fazendo ciranda como se nada mais existisse ao redor. Se jogam água, se empurram, se batem e estapeiam. Dois infantis esperando a distração alheia para lhe enfiar um dedo babento no ouvido, pular em suas costas ou falar com intimidade sobre seu par. Pensam que estão no ortodontista e não param de mostras seus sorrisos o tempo todo. Bobo. Boba. Qualquer um que jogue truco ou poker por um tempo entende a ler sinais. Sabe o que um leve piscar de seu companheiro quer dizer. Sabe como passar um sinal com um leve gesto de dedos, com um frio movimento das mãos sobre a mesa, com uma leve erguida do fundo do baralho. Mas entender o que o outro pensa apenas com um olhar nos olhos... Apenas um olhar nos olhos... sem piscar, sem movimentos, sem franzir o cenho, e ainda assim compreender,  e se sentir compreendido... Isso poucos sabem fazer,...

O Juízo Legítimo

Gelo, gelo e gelo. Um mundo todo feito de gelo. Nenhum homem ou mulher sobrevivera ao holocausto. Apenas alguns animais. Aural, uma coelha pequena, nasceu e  foi renegada pelos pais coelhos. A mãe coelha vivia preocupada com a páscoa e o pai, bom, ele não aparecia mais. E ela viveu sozinha. Não conhecia muito outros seres, mas sabia que era uma coelha. E decidiu ser uma boa coelha. Passou a viver em comunidade com outros coelhos e coelhas. Juntos formaram uma sociedade. Cultivavam cenouras, criavam tocas e faziam mais coelhinhos. Mas Aural queria conhecer mais o mundo. Em um dia muito gélido, resolveu conhecer Eti, uma parte da floresta em que ninguém ia. Poucos minutos após entrar nela, ouviu um rosnado. Olhou para trás e viu um grande urso pardo. Ambos correram. A coelhinha sabia que era menos veloz. Desviava de caminho para despistar o urso. Neve espirrava das patas de ambos. Ela entendia que tinha entrado em um território que não era dela e tinha que sair dali. Mas a...

Um lugar chamado Entropia

Um lugar chamado Entropia. Um reino escondido, esquecido no tempo. Com florestas com cores que iam de rosa a verde. O ar estava sempre com uma camada de névoa. Fresca, reconfortante. Para qualquer lado que se olhasse, havia esse ar úmido. Agradável. Ali havia uma amanhecer eterno. Não havia meio dia, não havia noite. Aural nunca se esquecia como gostava de encontrar o Sr. R naquele lugar. Os dias eram lindos. Mas aquele dia não era um bom dia. Há algumas coisas a explicar sobre o reino de Entropia. Ele não é lindo por inteiro. Ele tem um subsolo. Um lugar cheio de cavernas e túneis, local para onde toda a sujeira fora varrida e escondida. Para lá, um dia, foi varrido um dragão chamado Ucrem. Era um dragão doente, não conseguia exalar chamas. Ele apenas exalava um ar venenoso, que matava a todos em questão de minutos. A partir de então, ele passou andar pelos túneis, preso por dois soldados com máscaras. Ele não tinha mais vontade própria. Apenas os obedecia. Todos os moradores d...

Um tombo

 A noite estava quente, mas agradável. Eu olhava a praia. Estava sentado e apreciava o som das ondas. Olhei meu relógio que ganhara. Quase nove da noite. Ouvi passos atrás de mim mas me mantive imóvel. Senti alguém pular em minhas costas e a joguei para a frente. Ela rolou na areia e olhou sorridente para mim. - Bobão. A agarrei pela cintura. Caminhei até a quebra das ondas e a joguei. Voltei e me sentei no mesmo lugar. Ela veio até mim com um olhar furioso. Sentou ao meu lado. - Idiota, vc estragou meu cabelo. Se você fizer isso de novo... A levantei e a joguei novamente no mar. Sentei novamente, mas quando ela voltou, saíam faíscas dos olhos dela. - Seu otário, se você fizer isso de novo... Mais um banho de mar... Ela voltou com as pernas moles e desorientada, dessa vez. Olhou para mim. Fixou o olhar. Achei que naquele momento ela procurava todas as palavras do dicionário para me xingar. O lábio dela tremeu, mas nada falou. Ela apenas se sentou ao meu lado, n...

Cansada

Estava aguardando-a em um café em um shopping. Quando a vi, a sacaneei. A fiz passar três vezes por mim. “olhe neste restaurante, olhe naquele, olhe no outro...” No fim, eu fingia ler uma revista e seu olhar encontrou o meu. Ela sorriu com alegria e ódio e veio andando de forma calma – quase calma – e elegante em minha direção. - Leon? - Laura? Me levantei e pensei por um segundo na elegância que sempre tive ao me encontrar com uma mulher. Aperto de mãos, um abraço, um beijo no rosto... Mas eu toquei meus lábios nos lábios dela. Senti o corpo dela estremecer. Saímos para conversar em um bar. Eu tentava permanecer calmo, mas estava tão maravilhado aquele dia... Eu pedi para beijar seu olho direito e ela deixou. Acho que capturei sua alma naquele momento. Andamos muito naquele dia. E em outros também. Quando voltamos, ela me disse: - Eu queria inventar um salto alto que me fizesse andar sem precisar mexer as pernas. Não as sinto mais. - Estou cansada. Estressada....

Círculos

Círculos Me lembro da primeira vez em que olhei meu amor e a desejei. Não de forma lasciva. Foi a vez em que a olhei e a desejei como a companheira de toda uma vida. Ela não vai saber que dia foi esse, mas vai ficar tentada a adivinhá-lo. Mas me impressiona como a mente pode nos enganar. As palavras que uso para definir como ela entrou em minha vida, basicamente, são: Furtivamente, sorrateiramente, disfarçadamente... Não pense que minha princesa fez isso de forma unilateral. Eu corroborei e aceitei cada passo. Sou culpado, também. Por isso o amor é algo tão especial e difícil... eu acho. Ele é uma mão de via dupla. Mas nossa história, de menos de dois anos, guarda coisas que nem o casal mais apaixonado do mundo poderia ter contabilizado. Aliás que acho que somos o casal mais apaixonado do mundo e então posso contar. Só não vou contar porque não quero. “Ela passou do meu lado, oi amor, eu lhe falei” Quando brigamos, vira uma tempestade. Não pense em tempestade de chuva. É...

Diz

Diz Acordei, me virei na cama e a procurei. Minha mão encontrou apenas o lençol da cama. Meu peito suspirou uma ausência. Eu travei minha respiração. Não queria acreditar que ela não estava comigo. Não queria sentir aquilo. Me levantei e fui tomar banho, aos trancos e barrancos. No banheiro, vi o frasco de xampu virado para o lado errado. Era o toque dela. Abri a torneira do chuveiro. Vi que o controle de temperatura estava no número cinco. O que ela sempre usava. Me banhei e me sequei. Ao me pentear, vi os cabelos dela em minha escova. Voltei a meu quarto e vi um chinelo dela ao chão. Como sempre, eu sabia que o par estava embaixo da cama. Nesse momento me toquei que eu tentava vê-la em tudo. Entendi que era bobagem da minha cabeça. Tínhamos apenas cinco por cento de nossas vidas para dar um ao outro. Era inevitável que eu a visse em muitas das porcentagens restantes. Os momentos em que estávamos distantes. Nesse dia pensei sobre a palavra “distante”. A língua portuguesa é co...
Nosso acordo Eu a amo, ela me ama. O que é um acordo? Eu te levo para passear em um parque. Te pego pela mão e te arrasto. - Onde vamos? - Confie em mim. Brincamos passeamos e sentimos felicidade. Não sentimos nada ao redor. Nem ar. Oxigênio é coisa de cientistas. -Você me sente? -Sim, com medo. De perder. -Eu sempre deixaria você ganhar de mim. -Não, sinto medo de te perder. O vento era muito forte. Haviam poucos momentos para falar. -Você via levar uma coisa para mim. - O que? - Saiba. Algo escrito é algo combinado. Palavras ao vento ficam no vento. Palavras escritas na pedra perduram. - Diga! - Vocé é E. Eu sou R. R ama E. E ama R. Isso é nosso acordo.

Quanto Custa a Eternidade?

Quanto custa a eternidade? Estamos velando um corpo. Bem,  primeiramente preciso explicar a minha futura esposa que este texto foi incrivelmente difícil de conceber. Não que eu não saiba escrever. É que não sei escrever sobre ela, então tenho que usar minhas impressões a respeito dela para tentar me fazer entender. E essas sensações dizem respeito a mim. Então, tenho que usar minhas sensações para falar sobre ela. Minha mulher é minha viúva, agora. Eu acabei de morrer. Estou deitado em uma urna, em meu funeral. Estranhamente, ainda sou capaz de relatar o que acontece. Eu morri. Mas ouço as pessoas falarem ao meu redor. Em especial, ouço o choro silencioso de minha mulher. Sinto ela e suas emoções e afetos por mim. Como eu adoraria fazer uma poesia para ela... mas acho que ela entende que não sei fazer poesia. Sei olhar para ela e admirá-la, mas não sei poetizar sobre ela. Mas vamos nos lembrar de que estou morto e a ouço e a vejo, apesar disso. Ela se lembra dos no...