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Mostrando postagens de outubro, 2015

Arroz

Arroz Cheguei tão cansada em casa. Tive que sair mais tarde. O hospital estava cheio e eu tive que dobrar meu turno. Outros dobraram também. O que eu mais queria era tomar um banho, comer e dormir. Nunca acreditei em ter indigestão em comer e depois tomar banho. Entrei em casa e meu namorado estava dormindo no sofá-cama. Passei a mão pelo rosto dele e ele nem se mexeu. No caminho até o banheiro, vi a cozinha intacta. Nada para comer. Me resignei com meu banho. Depois de alguns minutos no banho, ele abriu a porta apenas um trecho e com um olhar de sono me disse “Como foi o dia?” “Preciso de cama.” “Tem algo pra comer?” “Deixei algo aí.” Saí do banho sabendo que ele tinha pedido uma pizza. Tava ótimo. Gastamos mais, ganhamos mais gorduras, mas eu tava com uma fome... - O que você fez, amor? - Arroz... Abri o forno duvidando dele. Quando olhei... vi uma panelinha de arroz de uns dois dias. Seco. - Arroz, filho da puta? E branco? E velho? Ele levantou nervoso. - ...

A Cuca

A Cuca A Cuca é provavelmente o ser mais besta que passa pelo imaginário infantil. Como ela é? Me descreve ela? É um jacaré que anda em duas patas, um monstro disforme ou a Xuxa sem Cicatricure?? Essa última imagem vai me perseguir o resto da noite... Voltemos a Cuca. É a coisa mais horrorosa do mundo. Quando somos criança, tudo nos amedronta. Mas aquilo que não sabemos o que é, aquilo que não vemos, consegue ser mais assustador. Eu tinha uns seis anos quando a vi pela primeira vez. Lembro que gritei e corri da cozinha. Era um dia frio como hoje, todo nublado. Eu associei a imagem dela a um lobisomem. Ela não era assustadora. Era apenas a coisa mais assustadora que eu já vira. Hoje é o dia em que a vi pela segunda vez. Vamos aos fatos: Eu estava desmaiado em um quarto de hotel, caído no chão. Minha menina tentava me acordar. Era noite e o vento castigava as janelas. Minha menina – um dia falo o nome dela – bateu no meu rosto. - Acorda, ela tá aqui! Me levantei com medo. ...

O Medo

O Medo O conselho reunido em um aquário de vidro. O corredor estreito e frio. Passar disfarçadamente por ali.  Se trancar no banheiro e sentar-se em um canto, abraçar as pernas e chorar.

A Torção

A Torção Eu me lembro exatamente do dia da luta. Era um campeonato de judô. Eu lutava com um cara um pouco maior que eu. Não foi culpa dele. Eu posicionei minha perna de forma errada e ele aproveitou a oportunidade. Meu joelho sofreu alguma lesão que me acompanha até hoje. A dor me acompanhou até o vestiário. Meu cérebro só passava pela dor em meu joelho. Eram choques de dor. Acho que foi o dia em que aprendi a lidar com a dor. Assim como todas as sensações, a dor é apenas uma sensação. Pense em outra coisa e você a esquece. Houve uma discussão entre eu e meu professor. Ele não queria que eu voltasse, para me preservar. Eu queria pisar de novo no tatami e ter a chance de reencontrar quem havia me machucado. Meu professor cedeu. Eu falhei. Não reencontrei nas chaves aquele que me machucara. E não saí vencedor, aquele dia. Mas... Algo ficou gravado em mim, aquele dia. Eu caí de novo várias vezes. Em algum momento, meu joelho não doía mais. Anestesia, talvez? Acho que não. Sentid...

Pra que se envolver?

Pra que se envolver? Eu estava sentado em uma van, a poucos quilômetros de casa. Lotação bem cheia, mas eu entrara no primeiro ponto e sentara logo após a catraca. Ouvi uma senhora falar bem alto: - Moço! Não é difícil perceber quando alguém fala ao telefone. Novamente: - Moço! Mais uns segundos e ouço: - Moço, onde você pegou minha filha? Minha cabeça analisou. Era um golpe. Eu estava com as pernas doendo de ficar em pé, não queria levantar. Meus dois pensamentos foram “É um golpe e ela vai perceber.” O outro foi: “Estou enganado, não sei o que acontece e não tenho nada haver com isso.” Ouvi novamente: - Moço, o que eu tenho que fazer? Não faz nada com minha filha! Não levantei aos trancos, mas minha estatura fez com que eu empurrasse algumas pessoas até chegar a senhora. Estávamos a poucos quarteirões da 21° DP. - Dona, é um golpe. Sua filha está bem. Tem uma delegacia no próximo ponto. A senhora vai descer e ir até lá comigo. Eu vou te acompanhar. Pra quê?...